TOPOGRAFIA DAS CORRENTES I

Na série Topografia das Correntes, o artista visual Jorge Feitosa subverte a tradição da cerâmica contemplativa para apresentar uma cartografia de urgência. O que à primeira vista parece a celebração de um fenômeno natural — o icônico encontro entre os rios Negro e Solimões — revela-se, sob um olhar atento, como a materialização de um sistema em estado de alerta.

A Linha como Fronteira e Conflito

Inspirado por uma imersão na bacia amazônica, Feitosa investiga as propriedades físicas que mantêm a individualidade das águas: temperatura, densidade, velocidade e acidez. Nas obras Topografia das Correntes I e II, essas variáveis deixam de ser dados científicos para se tornarem gestos plásticos. A esmaltação cria divisas que não se misturam de imediato, espelhando a resistência de dois corpos hídricos que coexistem em tensão. As formas de seixos de rio, polidas e orgânicas, sugerem uma “geologia da memória” que se recusa a ser dissolvida.

A Crítica do Antropoceno: O Fim do Fluxo?

O tom crítico da obra reside na consciência de que esse equilíbrio, embora resiliente por milênios, é hoje um sistema de fragilidade extrema. O artista utiliza a solidez da cerâmica para registrar um fenômeno que corre o risco de desaparecer.

  • A Seca como Erosão Poética: Feitosa nos confronta com a possibilidade teórica e real de o fenômeno findar. Secas severas e a alteração no regime de chuvas nos Andes e na bacia do Rio Negro ameaçam a dinâmica de fluxo que sustenta essa separação visual de 10 km.
  • O Impacto Humano na Matéria: O desmatamento e a degradação ambiental alteram a química e a carga de sedimentos dos rios. Ao cristalizar essas “linhas de água” no barro, o artista questiona: o que restará quando as diferenças de densidade e temperatura forem niveladas pela crise climática?

A Escultura como Testemunho

Se o Rio Amazonas é um corpo vivo em suspensão, a obra de Jorge Feitosa é o seu registro mineral. Topografia das Correntes não é apenas sobre o encontro das águas; é sobre o medo da sua mistura forçada pelo colapso ambiental. Entre o brilho do esmalte e a porosidade da argila, as peças operam como monumentos à resistência hídrica, lembrando-nos de que a beleza do encontro depende da integridade dos cursos que o formam. A cerâmica aqui não apenas emoldura a natureza; ela a testemunha antes que o fluxo mude para sempre.

Disponibilidade: Em estoque

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Informações Técnicas

Escultura em cerâmica de alta temperatura.

Modelagem manual, esmaltação reagente por sobreposição.

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